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| Foto: Montagem/Getty Images/Reprodução Facebook |
Filho do presidente Jair Bolsonaro, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), afirmou que a paisagista Elaine Perez Caparroz, 55 anos, não teria sido agredida por um homem que conheceu nas redes sociais se estivesse armada. A vÃtima de tentativa de feminicÃdioficou desfigurada e precisou de cirurgia reparadora. Ela foi espancada por quase 4 horas. O caso resultou na prisão em flagrante de VinÃcius Batistas Serra, 27 anos. Nesta segunda-feira (18), Carlos usou o Twitter para falar da agressão e defender a flexibilização do uso de armas. Em janeiro, o presidente assinou um decreto que prevê que a “efetiva necessidade” para posse de arma passa a abranger moradores de todo o PaÃs. O texto não muda regras para porte de arma - que permite ao cidadão andar nas ruas armado -, mas essa alteração está sendo articulada pela bancada da bala. Irmão de Elaine, Rogério Perez contou em reportagem do Fantásticoque a vÃtima está com uma fratura no nariz, que dificulta a respiração, e outras no globo ocular, na face e no maxilar, além de ter tido os dentes quebrados. O agressor afirmou aos policiais que dormia com a paisagista, acordou e teve um surto. A PolÃcia entendeu que VinÃcius espancou Elaine por ela ser mulher. Segundo Elaine, ela conheceu VinÃcius pelas redes sociais, os dois trocavam mensagem há cerca de 8 meses e marcaram um encontro, um jantar na casa dela. No hospital, ela disse que ele perguntou se podia dormir na casa dela, ela disse que sim. “Eu acordei com ele me esmurrando a cara. Ele foi tentar me dar um mata leão, coloquei as mãos para não deixar ele concluir e ele me mordeu.” As agressões continuaram. A posição de Carlos Bolsonaro, de que um acesso facilitado a armas de fogo evitaria casos de violência doméstica, é compartilhada por parlamentares da base do governo no Congresso Nacional, como a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP). “Tentou estuprar uma mulher, fogo nele. Bala nele. Eu como mulher, não hesitaria em atirar num estuprador que tentasse me violar ou a qualquer um dos meus filhos. A ideia é que a gente possa se defender e não ser a vÃtima do crime”, disse ao HuffPost Brasil na época da publicação do decreto. Advogados e promotores que trabalham com violência doméstica, contudo, sustentam que a liberação de armas irá agravar agressões a mulheres e casos de feminicÃdio devido a caracterÃsticas desse tipo de crime, como o perfil das vÃtimas e dos agressores e as fragilidades da rede de assistência, incluindo falhas no atendimento nas delegacias e na fiscalização de medidas protetivas e número insuficiente de casas de abrigo. Em entrevista ao HuffPost Brasil, a presidente da Associação de Advogadas pela Igualdade de Gênero, Renata Amaral, disse que usar a arma para se defender ”é uma reação que se espera de quem está pensando no caso de um furto, roubo, em no que denominamos ’crimes da rua, e não em crimes `de casa`”. A criminalista Stela Valim, por sua vez, apontou outras barreiras para que mulheres em situação de violência doméstica consigam se defender dessa maneira. “A grande realidade do Brasil como um todo continua sendo de que a mulher está em posição de desvantagem em relação ao homem. Ela tem menor (ou nenhuma) autonomia financeira, o que muitas vezes é um dos motivos que a impede de sair de uma situação de violência doméstica”, destacou. “Se ela não consegue sair de casa porque ainda não consegue bancar a si mesma e aos filhos, comprar uma arma vai ser prioridade? Claro que não.” Além da limitação financeira, a especialista apontou outras barreiras de acesso à s armas. “Não faz parte da realidade das mulheres brasileiras esse estÃmulo bélico, esse incentivo a se armar e a agir em legÃtima defesa a todo custo. Num paÃs em que ainda é cultural culpar a mulher pela violência que ela sofre, não parece condizente com o nosso contexto social que ela irá simplesmente sair de casa carregando uma arma na bolsa”, afirmou.
Números da violência doméstica
O Brasil é o quinto paÃs que mais mata mulheres no mundo, de acordo com números da OMS (Organização Mundial da Saúde). Segundo o “Mapa da Violência 2015: homicÃdio de mulheres no Brasil”, foram 21% de crescimento de mortes em uma década até chegar a 13 homicÃdios femininos diários em 2013. A taxa é de 4,8 homicÃdios por cada 100 mil mulheres. Embora homens sejam mais frequentemente vÃtimas de armas de fogo do que mulheres, esse tipo de arma é o meio mais usado nos 4.762 homicÃdios de brasileiras registrados em 2013, segundo o estudo. Foram 2.323 casos, o equivalente a 48,8%, seguido por objeto cortante/penetrante (25,3%), objeto contundente (8%), estrangulamento/sufocação (6,1%) e outros (11%). Como não se sabe a motivação de todos os registros, não é possÃvel dizer que todos são casos de feminicÃdio - homicÃdio de mulheres cometido em razão do gênero, ou seja, quando a vÃtima é morta por ser mulher, mas outros indicadores permitem analisar a abrangência dessas violações. O número de brasileiras vÃtimas de armas de fogo entre 2012 e 2016 permaneceu estável, segundo dados do Datasus. Mas os casos em que esses óbitos ocorreram em domicÃlio, o que pode indicar violência doméstica, oscilaram neste perÃodo. Em 2016, as 560 brasileiras mortas por armas em casa representavam 40,2% das mortes em domicÃlio. (MSN)

