Aos 7 anos, Kauane Silva consegue contar histórias sobre os baobás africanos com a familiaridade de poucos. “Na África, o baobá é uma árvore sagrada. Se você se encostar, tem um monte de sonhos”, professa a mocinha, na sala de aula do 2º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Senhora Santana, no Rio Vermelho, unidade que teve a terceira maior nota em Salvador no Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb) 2015, divulgado ontem pelo Ministério da Educação (MEC).
Kauane e os coleguinhas ajudaram a cidade, que ocupava a última colocação no Ideb entre as capitais, considerando o ensino na rede pública municipal, a saltar nove casas, indo para a 17ª posição no ranking, com nota 4,7. A meta, no ano passado, era chegar a 4,2. Além disso, foi a capital que teve a maior evolução no ranking educacional.
As 142 crianças da Senhora Santana – que só perdeu para as escolas municipais Armando Carneiro da Rocha, em Praia Grande, e Recanto dos Coqueiros, em Pituaçu, ambas com 6,5 – estão imersas em um projeto interdisciplinar sobre a África chamado “Em Busca de Nossas Raízes Africanas”.
E, para o corpo docente da escola, não há dúvidas: são projetos assim, dentro do novo projeto pedagógico da rede, os principais responsáveis pela evolução. Em 2013, a escola tinha atingido a nota 4,5 – com queda, depois de um 4,7 em 2011. Mesmo assim, tinha superado a meta para 2015, de 4,1. Agora, o grande salto, que coincide com o bom desempenho da rede.
Em 2011 e 2013, Salvador ficou com notas congeladas, para alunos até o 5º ano: 4 nas duas vezes. Em 2007, o Ideb foi de 3,8. Em 2009, caiu para 3,7. Com a nota de 2015, a cidade já supera, inclusive, o esperado para 2017, que é de 4,5. O Inep, órgão ligado ao MEC que organiza a avaliação, tem metas projetadas até 2021.
Rede de diálogo
São selecionados para a prova os alunos do 5º ano de todas 424 escolas da rede municipal. Segundo a secretária da Educação, Joelice Braga, o resultado é consequência de um modelo que prioriza o diálogo. “Temos iniciativas como o Programa Combinado, que são 112 ações articuladas entre a secretaria e as escolas, em que pensamos, juntos, soluções para que a escola funcionasse”, exemplificou.
São selecionados para a prova os alunos do 5º ano de todas 424 escolas da rede municipal. Segundo a secretária da Educação, Joelice Braga, o resultado é consequência de um modelo que prioriza o diálogo. “Temos iniciativas como o Programa Combinado, que são 112 ações articuladas entre a secretaria e as escolas, em que pensamos, juntos, soluções para que a escola funcionasse”, exemplificou.
Ela citou, ainda, programas como o Agente da Educação, que é a presença de um profissional em cada escola para diminuir a evasão escolar, que caiu 54%; o Idade Certa, que diminui a chamada “distorção de série e idade”, incluindo parceria com o Instituto Ayrton Senna; e o projeto pedagógico Nossa Rede, que usa a realidade de Salvador nos livros e cadernos trabalhados em sala.
Ao todo, cerca de 190 escolas foram reformadas ou construídas - outras 31 serão entregues até o fim do ano. Segundo Joelice, 28% do orçamento do município foi investido em educação - um acréscimo de R$ 350 milhões anuais na área além do obrigatório constitucionalmente. Conforme a prefeitura, antes apenas 22% do orçamento eram destinados à Educação, contrariando, inclusive, o que estabelece a legislação, que prevê aplicação de 25% para o setor.
“Estamos no caminho certo. Os próximos desafios são aumentar os investimentos em educação infantil, infraestrutura da rede física e ampliar as vagas de educação em tempo integral. O município cresceu junto com as escolas. É um resultado coletivo, fruto do trabalho de uma rede de ensino”, afirmou Joelice, lembrando ainda projetos pioneiros como a criação das Escolabs – Escolas Laboratórios, projeto realizado em parceria com o Google, com foco em inovação. Ele funciona em regime de Educação em Tempo Integral, que foi ampliado em 164%, segundo a prefeitura.
De cada escola
Além das medidas na rede, há, claro, as atitudes individuais de cada escola - é o caso da Senhora Santana. Cada ano tem seu tema, que deve ser trabalhado em todas as disciplinas, até mesmo em Educação Física e Língua Estrangeira. Na aula de Inglês, por exemplo, a professora traz músicas do cantor jamaicano Bob Marley, para discutir temas relacionados ao povo negro, assim como sua autoestima.
Além das medidas na rede, há, claro, as atitudes individuais de cada escola - é o caso da Senhora Santana. Cada ano tem seu tema, que deve ser trabalhado em todas as disciplinas, até mesmo em Educação Física e Língua Estrangeira. Na aula de Inglês, por exemplo, a professora traz músicas do cantor jamaicano Bob Marley, para discutir temas relacionados ao povo negro, assim como sua autoestima.
“O foco na interdisciplinaridade foi surgindo com os anos e cada disciplina usa sua linguagem dentro do projeto. Ao final disso, a criança realmente assimila conhecimento, não só informação”, opina a professora de Dança Maria de Fátima do Sacramento.
Camila é aluna do 4º ano da Escola Municipal Senhora Santana (Foto: Marina Silva/CORREIO)
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Apesar disso, a nota ter crescido tanto foi uma surpresa para os próprios professores, segundo a vice-diretora, Paula Shirley. “Foi uma surpresa boa. Como temos 143 alunos, também é bom conhecer a individualidade de cada um, é bom conhecer a família, estar perto”, afirmou.
No ano que vem, vai ser a vez da turma de Camila de Jesus, 10, fazer a Prova Brasil, um dos critérios para a nota do Ideb. Aluna do 4º ano, Camila diz que o projeto da África foi o seu preferido. “Acho que gostei porque somos da raça negra. E muitas coisas da África que estão até hoje”, comentou.
Colaboraram Hilza Cordeiro e Priscila Natividade(Correio)

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