Últimas

6/recent/ticker-posts

Com mais de 2 milhões de idosos, BA segue tendência da longevidade

Limpo a chácara, planto a rocinha de milho, eu mesmo cuido. A vida toda foi assim.” Essa é a rotina de seu Ramiro Ribeiro Azevedo, de 94 anos, morador do distrito de Catolés, em Abaíra, na Chapada Diamantina. Conhecida como capital da cachaça, pela tradição da produção da bebida, a cidade é a que tem a maior percentagem de idosos no interior da Bahia, 19,8% da população tem 60 anos ou mais. Os dados são do último Censo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010.
Em Abaíra, dos mais de oito mil moradores, cerca de 1.650 mil são idosos. Seu Ramiro está entre eles. Adaptado à rotina de uma cidade pequena e pacata, ele mantém uma vida simples e independente.
Mais vellho de nove irmãos, viúvo, o agricultor mora com o filho e a nora em uma casa localizada a cerca de meio quilômetro da roça onde trabalha e mantém hábitos saudáveis. Dorme e acorda cedo. Se alimenta bem, não tem problemas de saúde, parou de beber e fumar há 40 anos, tem uma boa convivência com a família e toma como exemplo o pai, que viveu até os “102 anos e 4 meses”, como diz ele com orgulho.
“Eu vou de carro [com o filho], outra hora volto de pé. Acordo 4h para fazer meu cafezinho. Faço porque gosto mesmo. Onze horas eu tô almoçando e 18h eu tomo café. Toda vida eu me conservei”, disse.
A Bahia é o 13º estado com mais idosos no país, com 13,7% (mais de 2 milhões) da população com 60 anos ou mais. A expectativa é que, até 2030, conforme o IBGE, a população idosa na Bahia chegue aos 3 milhões.
O Rio de Janeiro lidera o ranking, entre os estados e capitais com mais idosos no país, com 18,3% e 19,4%, respectivamente. Com 438 mil idosos, Salvador ocupa a 11ª posição entre as capitais. Com mais de 30 milhões de idosos, 14,6% da população, o Brasil já ultrapassou esse índice e envelhece a passos largos. A expectativa de vida do brasileiro, hoje, é de 75 anos, conforme o IBGE.
Para o médico Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Geratonlogia, seção Bahia, os desafios de um país que envelhece rapidamente são muitos. Dentre eles, o médico destaca o acesso à assistência básica de saúde pública.
“O número de aposentados está crescendo muito e de forma muito rápida em relação àqueles que estão contribuindo com a previdência. É uma população que costuma usar mais o serviço de saúde. E quando o utiliza é por um período mais prolongado e de forma mais intensa. Os custos com a saúde de um país que envelhece também aumentam de forma muito importante. Ainda é cedo para dizer que a gente envelhece bem”, diz.
Para seu Ramiro, envelhecer bem tem a ver com fazer boas escolhas e fazer o que gosta, com independência. Quando não está roça, ele cuida de um pequeno comércio que tem em casa. Não tem habilidade com celular, tecnologia, mas com as contas é rápido, garante o filho Paulo Campos, 54 anos, que mora com ele. “Pergunta uma conta pra ele que ele responde na hora”, diz.
“Não mexo com essas coisas [celular, computador…] não. Não aprendi e agora já tô muito idoso”, diz seu Ramiro, que estudou apenas até aprender a escrever o próprio nome, mas isso não o incomoda. “A gente não é estudado na escola, mas é na vida”, afirma.
O abairense teve dez filhos (sete estão vivos) e fala com alegria da quantidade de netos e bisnetos e da vida que construiu com a família no interior. “Tenho um rebanho de neto e bisneto e até tataraneto, dá pra encher essa rua”, diz aos risos.
Embora já tenha trabalhado em cidades grandes, conheceu a rotina agitada de algumas delas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília, ele admite que prefere mesmo a vida em Abaíra.