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Fome já matou cerca de 400 baianos na pandemia e 79 municípios não divulgam dados; 3.795 foram internados na Bahia

 


A fome durante a pandemia do novo coronavírus já levou pelo menos 3.795 baianos a serem tratados, em hospitais, com o quadro de desnutrição desde 2020. Desses, 407 vieram a óbito. Os dados de internação não aparecem maiores que em 2019, por exemplo, com 4.391 casos de desnutrição proteico-calórica notificados, mas isso pode indicar subnotificação, afinal, durante a pandemia, 79 dos 417 municípios baianos não lançaram os dados de internados pelo problema.

Uma semana de alimentação restrita pode ser o suficiente para desencadear um quadro agudo de desnutrição que leva à internação, quando os pacientes recebem reposições nutricionais e passam por intervenções específicas, a depender do quão afetado foi o corpo. No caso de Nova Canaã, a cidade baiana com maior índice de pessoas doentes de fome, existem 13 unidades de saúde, entre elas, um hospital. Mas, é possível que as internações ocorram em Vitória da Conquista e Itabuna, ambas a duas horas de distância, pela estrada.

“A situação de Nova Canaã é a de muitas cidades, muitas famílias, mas não tenho informações sobre esses casos específicos”, afirma o secretário municipal de Saúde, Feliciano Nascimento. A desnutrição crônica, quando até a estatura de um indíviduo é prejudicada, pode causar problemas de saúde ainda mais graves, como um câncer, e reduzir a expectativa de vida, alerta Sandra Chaves, nutricionista e professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Em 2015, a Pesquisa de Insegurança Alimentar do Plano Estadual de Segurança Alimentar trouxe dados sobre a fome.

“A gente tinha 92,6% dos lares com algum tipo de insegurança alimentar nessa região onde está Nova Canaã”, alerta Sandra. Desde 2003, a Bahia possui um Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional, para garantir que as pessoas se alimentem regularmente. O estado, no dado mais atualizado de 2015, aparecia como o quinto do Brasil com maior percentual de famílias em insegurança alimentar grave – 6,6% ou 317 mil domicílios. Os maiores desafios, mostrou a pesquisa, eram fortalecer a agricultura familiar, promover regularização fundiária, incentivar a economia solidária e instituir processos de educação alimentar. Nenhum deles, como se vê, ficou no passado.

A cada dez dias, Aline Moura, 40, participa de reuniões do Centro de Referência da Assistência Social de Icaraí, um dos dois distritos de Nova Canaã. A equipe recebe encaminhamentos da área de saúde, da educação e mapeia pessoas desnutridas. Quando o acompanhamento é iniciado, as famílias recebem visitas semanais que verificam a situação delas. “Neste ano, recebemos seis relatos associados à desnutrição”, conta Aline, que, como historiadora, observa o impacto das mudanças na cidade na área da nutrição.

Uma delas é o enfraquecimento das antes extensas lavouras de café, que empregavam boa parte da população. A economia ficou sustentada nas pequenas propriedades ou nas grandes, mas não muitas, terras de famílias ricas, onde trabalham os mais pobres, como aqueles obrigados a esperar a van da merenda que trará a próxima refeição. Quem sabe hoje servirão cuscuz com carne? Resta, mais um dia, aguardar. 

(Correio da Bahia)

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