Os termos divulgados do possĂvel negĂłcio sĂŁo muito interessantes. Destaco abaixo os pontos mais relevantes e alguns que merecem atenção e cuidado.
Quitação de dĂvidas
A previsĂŁo de aporte de R$ 300 milhões para quitação das dĂvidas sem necessidade de Recuperação Judicial ou Regime Centralizado de Execuções Ă© excelente. Seu efeito fundamental Ă© de recuperar a credibilidade da instituição que, infelizmente, vem entrando num ritmo ruim de inadimplementos nos Ăşltimos anos.
Priorizar essa questĂŁo Ă© um ponto que merece elogios tanto para o clube quanto para o Grupo City. Isso passa por equacionar eventuais pendĂŞncias trabalhistas, de FGTS, impostos e tambĂ©m com prestadores de serviços em geral e dentro do especĂfico mercado do futebol, o que será fundamental para o inĂcio do projeto da SAF - que, em relação Ă credibilidade, já terá um grande “boost” que Ă© a vinculação Ă marca do City Group.
Dinheiro para contratações
O valor de R$ 500 milhões para aquisição de jogadores Ă© um nĂşmero que impressiona, mas essa sensação diminui quando se estabelece o prazo de 15 anos (mĂ©dia de R$ 33 mi por ano) e, tambĂ©m, quando se lembra que há gastos alĂ©m da compra dos direitos econĂ´micos, como comissões e luvas (quando nĂŁo diluĂdas no contrato de trabalho).
Por outro lado, se uma maior parte desse valor for bem investida em, digamos, cinco anos - com uma gestĂŁo competente - o clube pode ser capaz de se retroalimentar e manter boa capacidade de investimento sem novos aportes.
Aliás, o maior valor que essa negociação agrega ao Bahia é a experiência e know-how do Grupo City, provavelmente o maior player do planeta quando se fala em MCO (multi-club ownership), uma vez que tem controle ou, ao menos, participação em uma dezena de clubes pelo mundo, em importantes mercados.
É de se esperar muito mais eficiência e assertividade nas ações de gestão do clube, especialmente no departamento de futebol.
Infraestrutura e Base
A previsĂŁo de investimento de R$ 200 milhões em infraestrutura Ă© muito boa. Certamente pode proporcionar o que há de melhor para equipes de base e profissional. NĂŁo houve, contudo, previsões sobre estádio, entĂŁo, seria importante saber como será a polĂtica de relacionamento com a Fonte Nova.
Outro ponto relevante a destacar é que, conforme a apresentação, esse valor não é um investimento obrigatório. Sua estipulação ficou bacana para atingir o número redondo de R$ 1 bilhão da proposta apresentada, mas diante da ausência de obrigação, essa questão ficou um tanto vaga.
Por outro lado, foi importante evidenciar que o Grupo City está não apenas atento, mas disposto a fazer investimentos nessas áreas.
Folha da SAF
A previsĂŁo de folha de pagamento mĂnima no valor de R$ 120 milhões/ano - ou 60% do faturamento da SAF (o que for maior) - deve proporcionar uma folha mensal de aproximadamente R$ 9 milhões (lembrando que tem 13Âş, encargos e há, para os jogadores de futebol, a possibilidade de divisĂŁo da remuneração em 60/40 entre CLT e imagem).
É preciso lembrar que a folha da SAF não incluirá apenas atletas e comissão técnica, mas também uma equipe de executivos e funcionários das respectivas áreas.
De toda sorte é uma boa previsão, especialmente porque se presume que será paga sempre em dia, o que é um diferencial no futebol brasileiro. Não é, entretanto, uma folha de Top-6 do Brasil.
É importante, ainda, verificar se há previsĂŁo contratual de correção desse valor mĂnimo ao longo dos anos.
Aquisição de mais 5% das ações pelo Grupo City
O direito de aquisição de mais 5% das ações do Bahia pelo City Group soou bastante estranho. Primeiro porque não se vislumbra o objetivo do investidor na obtenção dessas ações. Segundo, porque, sem esse percentual, o clube perderia alguns direitos previstos na Lei de SAF (como voto necessário para decidir participação em campeonatos, extinção das atividades ou atos de reorganização societária).
NĂŁo se vislumbra benefĂcio para a associação com essa cláusula, a princĂpio. AlĂ©m disso, sendo o Bahia um clube que nĂŁo tem sede social nem desenvolve outras modalidades esportivas, Ă© de se questionar o que seria feito com os milhões oriundos da venda dessas ações.
Não divulgação do contrato para os sócios
O ponto mais preocupante desse processo, até o momento, é a não disponibilização do contrato para análise do sócio.
É de se esperar que essa questão seja revista, pois, do contrário, haverá desrespeito à transparência do clube e ao seu estatuto. É que a competência para tomada da decisão de virar SAF é da Assembleia Geral, que é composta pelos sócios. Eles não podem deliberar apenas com base no que a diretoria ou conselheiros informarem. Os sócios têm direito de ver e analisar cada detalhe do contrato que irão votar.
Esse proceder de não disponibilizar o contrato é uma temeridade, inclusive, porque pode tornar controverso e litigioso algo que tem tudo para ser aprovado com tranquilidade - basta ver a repercussão bastante positiva de tudo o que foi anunciado. Não há motivos para impedir o sócio de ver o contrato que garante o que está sendo prometido. Não se pode alegar confidencialidade de documento em face de quem irá deliberar sobre o mesmo.
Impressões finais
Diante do exposto - e apenas com base no que foi divulgado - a proposta de aquisição da SAF do Bahia pelo Grupo City Ă© a grande notĂcia do mercado do futebol brasileiro neste ano.
Ferran Soriano, CEO do grupo, Ă© uma das maiores autoridades do mundo quando se fala em gestĂŁo de futebol. Ter uma figura desse calibre atenta ao futebol brasileiro Ă© algo animador para toda indĂşstria e espera-se, inclusive, que isso traga outros reflexos positivos, como na discussĂŁo sobre a Liga. Mas esse Ă© um assunto para outro dia.
Pedro Henriques Ă© gestor de futebol, advogado e foi vice-presidente do Esporte Clube Bahia de 2015 a 2017 e diretor executivo de 2018 a 2020. Eleito melhor CEO de clubes de futebol no Brasil em 2019.
Correio

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