O cancelamento provocou a revolta de prefeitos, que procuraram a UniĂŁo dos MunicĂpios da Bahia (UPB) para acompanhar a situação junto Ă equipe da Conder. A situação se agrava porque, em algumas cidades, os prefeitos jĂĄ haviam licitado as obras na esperança de receberem os recursos provenientes dos convĂȘnios assinados. Entretanto, com os processos cancelados por Rui, nĂŁo hĂĄ qualquer previsĂŁo financeira para que eles recebam a verba para custear as intervençÔes.
Como a Lei Eleitoral proĂbe que repasses sejam feitos nos trĂȘs meses que antecedem o pleito, o governo tem sugerido que os prefeitos toquem as obras e promete fazer o pagamento apĂłs as eleiçÔes, segundo informaçÔes de alguns prefeitos que se reuniram essa semana com o Governador Rui Costa. Ação, contudo, Ă© proibida e pode, inclusive, enquadrar o governador Rui Costa e os prefeitos na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
Assim, alĂ©m de os recursos nĂŁo poderem mais ser repassados pelo menos atĂ© o dia 2 de outubro pela proibição da lei eleitoral, todo o processo administrativo precisarĂĄ ser refeito apĂłs a data. Ou seja, o convĂȘnio tem que ser novamente assinado, seguido de uma nova licitação e homologação de empresa vencedora e, enfim, o inĂcio das obras. O que nĂŁo deve ocorrer antes do final do governo Rui Costa (PT).
Integrantes da oposição no estado dizem que os convĂȘnios sĂŁo meramente eleitoreiros, uma vez que atingiram cifras de bilhĂ”es de reais, nĂșmeros muito superiores aos registrados em anos anteriores. As suspeitas de irregularidades com os convĂȘnios jĂĄ estĂŁo na mira dos ĂłrgĂŁos de controle.
Com a divulgação do cancelamento vindo a pĂșblico atravĂ©s de uma denĂșncia feita pelo deputado Sandro RĂ©gis, o presidente da UPB, ZĂ© CocĂĄ (PP), passou a ser procurado pelos prefeitos para que a entidade prestasse alguma orientação. O gestor conta que acionou a equipe tĂ©cnica para buscar informaçÔes junto Ă Conder. Uma reuniĂŁo entre a UPB e o ĂłrgĂŁo foi agenda por duas vezes e cancelada sem explicaçÔes.
"O que os prefeitos querem Ă© uma orientação. Todos tĂȘm interesse em levar obras para seus municĂpios, mas o gestor nĂŁo pode ficar com o ĂŽnus de responder depois. O que a gente busca Ă© a clareza da informação para orientar os municĂpios de como proceder. A UPB sempre intermediou essas questĂ”es de forma tĂ©cnica para defender o interesse dos municĂpios, sem qualquer cunho polĂtico, partidĂĄrio, muito menos eleitoral. Ă preciso que o governo dialogue e apresente uma solução para a execução das obras".
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ApĂłs eventos em todo o estado para a assinatura em massa e publicados os convĂȘnios no DiĂĄrio Oficial do Estado (DOE), as gestĂ”es municipais deram sequĂȘncia ao processo, realizando as licitaçÔes que definiram as empresas que tocariam as obras. No dia 16 de junho, porĂ©m, em pleno feriado de Corpus Christi, trĂȘs processos que contemplavam 295 convĂȘnios foram tornados sem efeito pelo governo em uma Ășnica publicação de rodapĂ© no DOE. Quase imperceptĂvel em meio a outros comunicados da Conder.
Na prĂĄtica, os 295 convĂȘnios foram cancelados pelo governo sem qualquer tipo de aviso mais detalhado por parte da gestĂŁo estadual. Muitas das prefeituras homologaram apĂłs o dia 16 de junho o resultado das licitaçÔes, que agora nĂŁo contam mais com qualquer lastro financeiro, antes garantido pelo Estado.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com as prefeituras de Conceição do Almeida, na regiĂŁo do RecĂŽncavo, e de Lagoa Real, no Sudoeste. As gestĂ”es municipais anunciaram os vencedores das licitaçÔes, respectivamente, nos dias 23 e 30 de junho, mais de uma semana apĂłs o cancelamento dos convĂȘnios. O repasse dos recursos nesse caso sĂł seria possĂvel com algum arremedo jurĂdico, jĂĄ que deixou de existir a dotação orçamentĂĄria correspondente.
O convĂȘnio de Lagoa Real foi um entre centenas que foram distribuĂdos no dia 13 de abril, no Hotel Fiesta, em Salvador. No ato polĂtico que reuniu diversos prefeitos, o governador Rui Costa assinou os convĂȘnios tendo sempre a tiracolo JerĂŽnimo e Geraldo Jr. (MDB), prĂ©-candidato a vice-governador. Para a cidade, seriam destinados R$ 1,2 milhĂŁo para obras de recuperação da Praça Pedro JosĂ© de Oliveira.
No caso de Conceição do Almeida, seriam destinados R$ 1,1 milhĂŁo para a requalificação de praças nas localidades de ComĂ©rcio de Jaguaripe e de SapatuĂ. A assinatura tambĂ©m foi realizada em evento polĂtico na cidade, igualmente com a presença dos prĂ©-candidatos do grupo petista. Pela lei, todas essas licitaçÔes perderam eficĂĄcia apĂłs o ato de 16 de junho cancelando os convĂȘnios.
Santana, na regiĂŁo Oeste do estado, teve sozinha 14 convĂȘnios cancelados, sendo a mais afetada. LĂĄ, cinco licitaçÔes jĂĄ foram homologadas entre 22 e 28 de junho, sendo quatro para obras de pavimentação de estradas e uma para construção de ciclovias. Capim Grosso, com 10, e IpiaĂș, com nove, foram as outras cidades mais afetadas.
Outro caso emblemĂĄtico ocorreu em Inhambupe, no Nordeste do estado. O convĂȘnio foi firmado em 9 de março, em evento polĂtico no Centro de ConvençÔes, e destinaria R$ 7,8 milhĂ”es para construção de uma nova escola e requalificação do Centro de ConvençÔes. O convĂȘnio, porĂ©m, sĂł foi publicado no DOE em 14 e maio. A prefeitura abriu licitação e declarou a empresa vencedora da licitação para a obra no dia 2 de julho, quando o cancelamento jĂĄ havia sido publicado. Ou seja, o municĂpio nĂŁo tem mais fonte de recurso para realizar as intervençÔes.
"O governador perdeu qualquer resquĂcio de credibilidade. Como um bom vendedor de fumaça, no desespero para tentar conquistar apoio Ă candidatura de JerĂŽnimo, prometeu o que nĂŁo podia cumprir. Agora, para tornar completa a fraude eleitoral, ainda pede aos prefeitos que concluam as obras e recebam os recursos depois da eleição", afirma o deputado Sandro RĂ©gis (UniĂŁo Brasil), lĂder da oposição na Assembleia Legislativa.
O pedido do governador estĂĄ ligado Ă lei eleitoral, que proĂbe o repasse geral de verbas do estado para os municĂpios nos trĂȘs meses anteriores Ă data da eleição. Como o pleito serĂĄ no dia 2 de outubro, a proibição entrou em vigor no dia 2 de julho. Para ter direito a receber os recursos dentro desse perĂodo, Ă© obrigatĂłrio, alĂ©m da assinatura do convĂȘnio, ter uma empresa contratada, um cronograma estabelecido e a obra jĂĄ iniciada fisicamente.
Acontece que, nos dias 29 e 30 de junho, Ă s vĂ©speras, portanto, do fim do prazo para repasse do dinheiro, dezenas de convĂȘnios foram publicados no DiĂĄrio Oficial. Para nĂŁo infringir a lei eleitoral, a obra precisaria ainda ser licitada e iniciada atĂ© o dia 2 de julho, o que seria impossĂvel, atendidos corretamente os trĂąmites legais. Agora, para o Estado nĂŁo descumprir a lei, as prefeituras nĂŁo poderĂŁo receber as verbas atĂ© outubro.
Ainda de acordo com a oposição, muitos convĂȘnios foram celebrados sem observar as regras legais, inclusive sem a comprovação de certidĂ”es prĂłprias e da regularidade fiscal, passando a entrar na mira dos ĂłrgĂŁos de controle, como o Tribunal de Contas do Estado e do MinistĂ©rio PĂșblico.
Para tentar conferir alguma legalidade Ă manobra, a prĂłpria Conder - e nĂŁo o ĂłrgĂŁo responsĂĄvel, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) - editou um parecer jurĂdico para autorizar a celebração dos convĂȘnios com prefeituras sem regularidade fiscal e adimplĂȘncia comprovadas. Conforme o parecer, tal comprovação poderia ser feita em um prazo de 180 dias - ou seja, depois das eleiçÔes, jĂĄ no final do governo Rui.
O que o parecer permite, na prĂĄtica, Ă© que o governo do estado possa posteriormente romper o convĂȘnio e nĂŁo realizar as obras colocando a culpa nas prefeituras, por nĂŁo terem ficado inadimplentes a tempo. "Em troca de apoio polĂtico, o governo fecha os olhos para a ilegalidade e, depois, quando constatado qualquer problema, vai jogar a culpa nas costas dos prefeitos. A eleição virou um verdadeiro vale-tudo para o PT", critica RĂ©gis.
Em outra ponta, se o governo do estado realizar os repasses aos municĂpios dentro do prazo que a legislação proĂbe - ou seja, atĂ© o dia 2 de outubro -, estarĂĄ ferindo a lei eleitoral e poderĂĄ ser punido com a cassação do candidato beneficiado, JerĂŽnimo Rodrigues. No caso, serĂĄ preciso provar que a obra teve inĂcio antes de 2 de julho. Num levantamento feito nas cidades acima citadas - Lagoa Real, Conceição do Almeida e Inhambupe - nenhuma saiu do papel.
"Ou seja, o desespero Ă© tamanho que nĂŁo hĂĄ escapatĂłria. Ou o governo vai deixar os prefeitos na mĂŁo, sem as verbas prometidas, ou, caso inicie as obras a partir de agora, estarĂĄ sujeito a ter o registro de seu candidato cassado, alĂ©m da chance de responder por improbidade administrativa", acrescenta o lĂder da oposição na Assembleia.
O que diz o governo
Em nota, o governo classificou como "fake news" a informação de que convĂȘnios foram cancelados pela Conder. A companhia esclareceu que em 2022 "mais de 300 convĂȘnios jĂĄ foram firmados para execução de obras de pavimentação e drenagem, construção de moradias e praças, alĂ©m da reforma de equipamentos urbanos em diversas regiĂ”es".
No entanto, a resposta do governo Ă© confrontada por publicação no DiĂĄrio Oficial do Estado de 16 de junho. Na tentativa de esconder o cancelamento, o governo nĂŁo fala nos convĂȘnios, e apenas informa que foram tornados sem efeito trĂȘs processos SEI. Ao buscar informaçÔes sobre estes trĂȘs processos, a reportagem identificou que se trata dos convĂȘnios cancelados.
Correio


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